Exmo concidadão
Aníbal Cavaco Silva,
Presidência da República
Belém
Caro concidadão
Tenho 66 anos, e sempre vivi neste “país”.
Isso significa que passei a infância, a juventude e uma boa parte da idade adulta, no negro tempo do estado novo e o restante da idade adulta, na democracia (????).
Toda a vida viajei muito (quer em lazer quer em trabalho) e conheço, portanto uma boa soma de países, em 4 continentes (falta-me a Austrália, irónicamente o país para onde tentei emigrar nos anos 80, já com 5 filhos, mas que, por um mero azar não consegui).
Até 1974, data da revoluçao (mal empregada), quando vinha a propósito dizer a minha origem (sem necessidade de o comprovar), umas vezes dizia que era argelino, outras, tunisino, outras, brasileiro, outras, marroquino por um motivo terrível: tinha uma profunda vergonha de ser português.
No dia 1 de Maio de 1974, comprei e empunhei pela primeira vez na vida (e, lamentávelmente, a última) uma bandeirinha portuguesa...
Até 1974, responsabilizava exclusivamente o estado e os governantes, pelo estado vergonhoso em que vivíamos, financeiramente, socialmente, culturalmente (não todos, claro, mas uma imensa maioria).
Eu não me incluo nessa maioria (por isso estou muito à vontade e intelectualmente tranquilo ao escrever esta carta) porque era um semi-privilegiado .Sou oriundo de uma familia da classe média, tive acesso ao estudo, a um tecto confortável, a uma alimentação decente, à saúde,à electricidade, à água, ao esquentador, ao telefone, à Tv, etc e, quando chegou a altura de me tornar financeiramente independente dos meus pais, tive a sorte de me empregar numa empresa multinacional americana onde me formei profissionalmente (como programador e analista de informática)e onde sempre auferi um vencimento e uma série de regalias muito acima da média.
Erta o tempo em que um trabalhador era uma riqueza para o empresário e não, como agora, um CANCRO!.
Entretanto,e depois da revolução, a sociedade portuguesa foi evoluindo (aos solavancos...mas evoluindo), alguns pobres passaram da classe pobre para a classe média-baixa, alguns da classe média-baixa subiram à classe-média, alguns da classe-média subiram à classe média-alta, alguns da classe média-alta passaram a ricos, juntando-se à classe política e respectivos boys, e aos outros que ja eram ricos e que passaram a muito ricos. E os portugueses andavam felizes (até organizaram um europeu de futebol e foram à final-viva portugal!). além disso isto agora era democracia (santa ignorância...), agora já podiam falar à vontade (principalmente à vontade dos chefes...), já podiam votar (sempre no PS e no PSD, porque o que é preciso é ganhar, caramba!...)começaram devagarinho a melhorar a situação financeira (o segredo nº 1 do capitalismo), a comprar casa(facílimo: prazo 40 anos (quando acabar de pagar, se ainda estiver vivo, paga 4 vezes o valor da casa), carro (nada mais fácil, compre um Alfa xpto com 230 cv sómente por 12,80 euros por dia (durante 96 meses à taxa de 30% ao ano), 2 televisões por lar, 5 telemóveis por familia, mobilias (compre hoje e comece a pagar daqui a 3 meses), a receber em casa cheques bancários com ofertas de dinheiro fácil “é só passar no nosso balcão e tem o dinheiro na sua conta em 24 horas e só paga 30euros por mês(120 meses a taxa de 26% ao ano), a ir de férias para o brasil (viaje hoje e pague em 72 suaves prestações (à taxa de 34% ao ano)e a não perceberem que os mafiosos das empresas financeiras –sempre com o apoio,ou pelo menos com a condescendência dos governos (todos!) estavam a cobrar o facto de lhes terem dado a cenoura de “subir na vida” para, agora terem as contas de off-shore a transbordar e os que andaram estes anos todos a enchê-los, estarem paulatinamente a baixar da classe média-alta para a média, da média para a média-baixa, da média-baixa para a pobresa!A única que não baixou foi a dos ricos,(Banqueiros, grandes empresários, gestores públicos, grandes especuladores, grandes mafiosos, grandes politicos e seus grandes boys, que,pelo contrário sobem, sobem, sobem, até níveis completamente imorais, animalescos.
E hoje, da voz dos políticos (que não sabem(??????) que os cidadãos normais, que não são políticos, nem mafiosos,nem grandes empresários, nem banqueiros, nem ladrões, nem especuladores, para dar de comer aos filhos precisam de trabalhar, a frase que mais se ouve é “facilitar os despedimentos”!.
É de ir às lágrimas....
E o número de crianças que vai para a escola sem tomar pequeno almoço e que quando volta para casa, não almoça nem janta (a não ser que o pai, à noite vá “comprar” alguma coisinha aos contentores do lixo que estão à porta dos hoteis e restaurantes(só tinha visto isso em Luanda, porque nunca fui à Índia nem ao Iraque, nem ao Afeganistão...), a aumentar, aumentar, aumentar.
Antes da revolução, a situação dos portugueses era, financeiramente, socialmente, culturalmente deprimente (não todos, claro, mas uma grande maioria).
Hoje a situação dos portugueses é financeiramente, socialmente, culturalmente degradante (numa imensa maioria).
Agradeça, sr presidente a pelo menos 75% de votantes deste povo admirável!
Agradeça em seu nome e de todos os políticos que (sempre com um sorriso cínico e deprimente nos lábios), têm destruído a sociedade portuguesa, por continuarem fieis a votar em vossas excelências!.
Afinal, que culpa é que vocês têm???...
Antes do 25 de abril, quando ia ao estrangeiro, dizia que era marroquino ou argelino, ou brasileiro.
Hoje digo que não tenho país.
Cumprimentos
Luis Leiria de Lima